HISTÓRIA

O que eram as Old Charges e por que ainda importam?

Os Antigos Deveres conservam a memória escrita do ofício muito antes das Grandes Lojas. Entre narrativa lendária e disciplina profissional, encontram-se raízes importantes do Craft inglês.

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Reconstituição artística de manuscritos de pergaminho associados aos Antigos Deveres do ofício.
Reconstituição artística.

A Maçonaria especulativa herdou do ofício da pedra muito mais do que o nome de suas ferramentas. Herdou uma linguagem moral, uma concepção de pertencimento profissional e, sobretudo, um conjunto de textos em que os construtores explicavam a si mesmos de onde provinham, a que deveres estavam sujeitos e sob quais condições podiam exercer legitimamente sua arte. Esses documentos são conhecidos como Old Charges, expressão habitualmente traduzida por Antigos Deveres ou Antigas Obrigações.

Sua importância não reside na possibilidade de encontrar, neles, uma versão medieval do ritual contemporâneo. As cerimônias dos três graus simbólicos, tal como se estabeleceram no século XVIII, não aparecem prontas em seus fólios. O que sobrevive é algo de natureza diversa e, historicamente, mais seguro: a tradição documental de uma corporação cuja identidade se formou em torno da geometria, da disciplina do trabalho e da exigência de conduta moral entre seus membros.

Regius e Cooke: duas formas de uma mesma tradição

Entre os testemunhos mais antigos destaca-se o Manuscrito Regius, também conhecido como Halliwell, hoje preservado na British Library sob a classificação Royal MS 17 A I. Sua datação tradicional costuma situá-lo por volta de 1390, embora estudos paleográficos o aproximem do início do século XV. Trata-se de um poema em inglês médio, com aproximadamente 794 versos, no qual os deveres dos construtores convivem com uma narrativa que associa a origem da arte à geometria e ao prestígio da sabedoria antiga.

O Manuscrito Cooke, identificado pela classificação Additional MS 23198, também pertencente à British Library, conserva uma versão em prosa, geralmente situada na primeira metade do século XV. Seu texto desenvolve uma história legendária do ofício, seguida por prescrições de natureza prática e moral. A presença de personagens bíblicos, de Euclides e do rei Athelstan não deve ser confundida com uma crônica factual. As genealogias lendárias cumpriam a função de conferir antiguidade, dignidade e autoridade a um ofício que necessitava de regras reconhecidas por mestres, companheiros e aprendizes.

Não se trata de dois manuscritos isolados. Ao longo dos séculos seguintes, o texto dos Antigos Deveres foi reproduzido, adaptado e reorganizado em numerosas versões. A existência de cerca de cento e trinta testemunhos conhecidos, com diferenças de redação e parentesco textual, permite falar em um verdadeiro corpo documental. O estudo dessas famílias de manuscritos ocupou pesquisadores como William James Hughan, Robert Freke Gould e, posteriormente, Douglas Knoop, G. P. Jones e Douglas Hamer.

Deveres profissionais, obrigação moral

O conteúdo normativo revela as preocupações concretas da antiga corporação. Honestidade no trato com os empregadores, fidelidade aos compromissos assumidos, respeito à hierarquia do ofício, diligência na execução da obra e comportamento digno entre companheiros figuram entre as exigências recorrentes. A geometria, apresentada como fundamento intelectual da construção, participa de um universo em que saber técnico e dever moral não eram considerados atividades estranhas uma à outra.

A leitura desses deveres também se relacionava, em determinados contextos documentados, com procedimentos de admissão e juramento. Seria imprudente, porém, estender uma sequência cerimonial uniforme a todas as lojas e a todos os séculos. Os documentos sobreviventes autorizam reconhecer usos institucionais e morais dos textos, não reconstruir uma liturgia universal que os próprios manuscritos não descrevem. A cautela é particularmente necessária quando se pretende identificar, em qualquer prática medieval, uma versão antecipada dos usos especulativos atuais.

O que permaneceu depois do ofício

Quando as lojas passaram a receber, em número crescente, homens que não trabalhavam profissionalmente a pedra, os Antigos Deveres conservaram utilidade como fonte de legitimidade e identidade. O texto já não servia apenas para regular o canteiro, mas para explicar a continuidade de uma associação que atribuía ao ofício uma dignidade intelectual e moral. A transformação não apagou o passado operativo; reinterpretou-o.

A publicação das Constitutions of the Free-Masons, por James Anderson, em 1723, participa dessa mesma continuidade. Sua história legendária, seu corpo de Obrigações e suas regras de governo não surgiram num vazio literário. O formato reconhece uma tradição antiga, agora adaptada à linguagem e às necessidades de uma instituição essencialmente especulativa. A semelhança de estrutura entre esses textos não comprova, por si só, uma transmissão ritual ininterrupta, mas revela uma herança documental que seria impossível atribuir inteiramente ao século XVIII.

A relevância das Old Charges para o maçom contemporâneo é, portanto, dupla. Elas demonstram que a Maçonaria organizada possui antecedentes escritos muito anteriores às Grandes Lojas e mostram que o discurso moral associado ao Craft nasceu de obrigações assumidas por homens cujo trabalho era real, exigente e sujeito a responsabilidades precisas. A distância entre o canteiro e o templo simbólico não anulou essa exigência. Apenas modificou a matéria sobre a qual ela passou a operar.


Referências históricas: Manuscrito Regius, British Library, Royal MS 17 A I; Manuscrito Cooke, British Library, Additional MS 23198; William James Hughan, The Old Charges of British Freemasons; Museu da Maçonaria de Londres; Cesar Scavone, Compêndio do Craft (2026).

LEITURA DE REFERÊNCIA

Compêndio do Craft

Da Pedra Operativa ao Ritual Contemporâneo, de Cesar Scavone.

Conheça a obra