HISTÓRIA

A Maçonaria começou mesmo em 1717?

A fundação da Grande Loja de Londres não coincide com o nascimento da Maçonaria. Entre as atas escocesas e a narrativa de Anderson, a diferença entre tradição e documento é decisiva.

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Reconstituição artística de uma taverna londrina do início do século XVIII, com grupos de homens reunidos.
Reconstituição artística.

A data de 24 de junho de 1717 ocupa, na memória maçônica, o lugar reservado aos acontecimentos fundadores. Segundo a narrativa tradicional, quatro lojas de Londres reuniram-se na taverna Goose and Gridiron, no adro da Catedral de São Paulo, e constituíram uma Grande Loja, elegendo Anthony Sayer como seu primeiro Grão-Mestre. A sucessão de nomes, locais e circunstâncias foi repetida durante três séculos, até adquirir a aparência de uma certidão de nascimento. Entretanto, a antiguidade de uma instituição e a antiguidade de sua forma administrativa não são, necessariamente, a mesma coisa.

A Maçonaria não surgiu pronta, com seus três graus, oficiais e cerimônias contemporâneas, durante uma reunião londrina. Muito antes de existir uma Grande Loja, corporações de construtores conservavam deveres escritos, formas próprias de associação e mecanismos de admissão. Na Escócia, onde a documentação sobreviveu com particular riqueza, os Estatutos de William Schaw, de 1598 e 1599, já disciplinavam a vida das lojas, enquanto os registros da Loja de Edimburgo, conhecida como Mary’s Chapel, permitem acompanhar reuniões desde 1599. Confundir o nascimento de uma federação de lojas com o nascimento do próprio ofício é ignorar mais de um século de evidência institucional, e vários séculos de tradição documental anterior.

O peso de uma narrativa tardia

O problema de 1717 não é a inexistência de uma tradição respeitável sobre o episódio, mas a natureza da fonte que lhe atribuiu seus contornos definitivos. James Anderson descreveu a assembleia fundadora nas Constitutions de 1738, mais de vinte anos depois dos acontecimentos. O relato apresenta os nomes das quatro lojas, recorda o encontro preparatório de 1716 e oferece uma sequência coerente para o estabelecimento da nova autoridade. Sua proximidade com os círculos dirigentes da Grande Loja confere importância ao testemunho, mas não o transforma em registro contemporâneo dos fatos.

As atas sobreviventes da Grande Loja de Londres e Westminster começam em 1723. Trata-se de um marco seguro, porque a partir dele a existência de uma organização central pode ser examinada por sua própria documentação administrativa, e não apenas por uma reconstrução posterior. Essa diferença de natureza entre as fontes impõe uma cautela que o prestígio da data tradicional não dispensa. Pode-se admitir que Anderson tenha recorrido a testemunhos de participantes ainda vivos sem concluir, por isso, que cada detalhe de seu relato esteja independentemente comprovado.

A Escócia antes de Londres

A anterioridade escocesa não constitui hipótese destinada a diminuir a fundação londrina. É fato documental. Os livros da Mary’s Chapel registram decisões, membros e admissões numa época em que a instituição de Londres sequer existia. Neles aparecem indivíduos sem vínculo profissional com a construção, sinal de que a passagem do ofício operativo à associação especulativa não dependeu de um acontecimento único. O processo foi gradual, desigual entre localidades e anterior à organização centralizada do século XVIII.

O que se formou na Londres setecentista foi, sobretudo, um novo modo de governo da fraternidade. A Grande Loja reuniu unidades anteriormente autônomas, estabeleceu regras comuns e passou a exercer autoridade sobre admissões, precedências e relações entre lojas. A publicação das Constitutions of the Free-Masons, em 1723, deu expressão impressa a esse programa de organização, em linguagem ajustada às aspirações intelectuais e sociais de seu tempo.

A dúvida de 1721

A questão voltou a ser discutida por Andrew Prescott e Susan Mitchell Sommers, que reexaminaram os primeiros anos da Maçonaria organizada em Londres e propuseram a hipótese de que a efetiva constituição formal da Grande Loja poderia situar-se em 1721, e não em 1717. A proposta não permite decretar falsa a data consagrada, assim como a ausência de atas anteriores a 1723 não prova que nenhuma reunião tenha ocorrido em 1717. O silêncio de um arquivo não autoriza, por si só, nem a certeza da tradição nem a certeza de sua negação.

A distinção é essencial. Uma coisa é reconhecer 1717 como a data fundacional adotada pela instituição e preservada por sua memória coletiva. Outra, muito diferente, é atribuir à documentação sobrevivente uma precisão que ela não possui. O primeiro reconhecimento pertence ao campo da história institucional; o segundo exige prova cronológica. A Maçonaria possui razões para celebrar a organização de suas primeiras Grandes Lojas, mas a fidelidade à própria história recomenda que não se atribua a essa celebração o significado de criação absoluta de uma tradição muito mais antiga.

O ano de 1717 assinala, portanto, uma mudança decisiva na história da Maçonaria organizada, não o instante em que a Maçonaria passou a existir. O ofício precedeu a fraternidade especulativa; as lojas precederam a Grande Loja; os documentos precederam a narrativa retrospectiva. É nessa ordem que os acontecimentos recuperam sua verdadeira dimensão.


Referências históricas: James Anderson, The New Book of Constitutions (1738); atas da Grande Loja de Londres e Westminster a partir de 1723; Andrew Prescott e Susan Mitchell Sommers, Searching for the Apple Tree; Cesar Scavone, Compêndio do Craft (2026).

LEITURA DE REFERÊNCIA

Compêndio do Craft

Da Pedra Operativa ao Ritual Contemporâneo, de Cesar Scavone.

Conheça a obra